O tamanho do avanço da fibra
O dado da Anatel deixa claro que a corrida pela fibra não é mais promessa, é maioria consolidada: no segundo trimestre de 2026, dos 55,4 milhões de acessos de banda larga fixa registrados no Brasil, 44,7 milhões eram atendidos por fibra — mais de 80% do total.
Esse avanço tem uma explicação técnica direta: aproximar as redes de fibra dos usuários e das estações de telefonia móvel renovou a procura por essa infraestrutura por duas razões concretas: menor custo e maior velocidade de implantação, segundo a própria Anatel.
O novo gargalo: não é tecnologia, é espaço físico
O problema que emergiu desse crescimento é pouco falado, mas concreto: por trás dessa expansão existe uma disputa bem menos moderna — encontrar espaço nos mesmos postes que há décadas carregam redes de telecomunicações. Linhas, caixas, emendas e grandes voltas de fios ocupam parte considerável da estrutura, e nem todo fio enrolado está abandonado; diferentes empresas podem compartilhar a mesma infraestrutura, com regras específicas para determinar como esse espaço deve ser ocupado.
Ou seja: o desafio do setor está migrando de “quem consegue construir rede mais rápido” para “quem consegue disputar espaço físico limitado em infraestrutura compartilhada” — problema regulatório e de engenharia, não de capital.
O motor por trás da expansão: dinheiro do FUST
Parte relevante dessa expansão de fibra tem vindo de recursos do Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações), via BNDES. Só neste ano, dois exemplos concretos:
- Em São Paulo: o BNDES aprovou R$ 10 milhões para a construção de cerca de 162 km de rede de transporte de alta capacidade em fibra óptica, atendendo sete localidades em três municípios, com expectativa de conectar 175 mil pessoas.
- No Nordeste: R$ 73,8 milhões liberados para a Aloo Telecom construir 1,2 mil km de rede subterrânea de transporte de dados entre Recife e Fortaleza, beneficiando 214 municípios e uma população estimada em 11,2 milhões de pessoas.
Em escala nacional, o volume é robusto: de agosto de 2023 a maio de 2026, o BNDES aprovou R$ 3 bilhões em recursos do Fust para 493 provedores — 98% deles micro, pequenos e médios —, incluindo R$ 1,8 bilhão especificamente para expansão de redes, com implantação de 15 mil km de fibra óptica e 616 estações rádio-base, alcançando 781 mil domicílios em 745 municípios.
Por que isso importa além do consumidor final
O crescimento da fibra oferecido por provedores regionais pequenos e médios — beneficiários de 98% dos recursos do Fust — reforça uma tendência que já vinha sendo observada no setor: a fragmentação do mercado de conectividade fixa em direção a operadores locais, em paralelo à consolidação das grandes teles em serviços de maior valor agregado (nuvem, redes privadas, segurança).
O que observar a seguir
- Se a regulação sobre compartilhamento de postes evolui para reduzir a “disputa por espaço físico” identificada pela Anatel
- Se o ritmo de aprovações do Fust via BNDES se mantém no mesmo volume até o fim de 2026
- Como a saturação de postes urbanos pode acelerar a demanda por infraestrutura subterrânea, mais cara mas com menos disputa de espaço
Fontes: Hardware.com.br (dados Anatel), ConvergênciaDigital, DataCenterDynamics, Ipesi, Minha Operadora.

