A decisão

Na terça-feira, 11 de agosto, o Conselho Diretor da Anatel emitiu o Ato nº 10.400, que delimitou o uso da faixa dos 6 GHz para Wi-Fi e redes móveis. Pelo Acórdão 203, o espectro ficará dividido da seguinte forma: entre 6.425 MHz e 7.125 MHz para telefonia móvel, e de 5.925 MHz a 6.425 MHz para Wi-Fi.

Na prática, roteadores modernos com suporte a Wi-Fi 6E e Wi-Fi 7 dependem da faixa inteira de 6 GHz para entregar mais velocidade e menor latência — com menos espectro disponível, fabricantes precisarão se adaptar.

Por que a Anatel decidiu assim

A justificativa é técnica, não política. Testes de laboratório e simulações de campo mostraram que a convivência de Wi-Fi e redes móveis no mesmo canal não funciona: em um dos cenários analisados, a taxa de transmissão do Wi-Fi caiu mais de 90%, enquanto a rede móvel perdeu 25% de desempenho.

Diante disso, o entendimento da agência foi de que a separação física do espectro é a única saída segura para evitar interferências e garantir a expansão do sinal celular no país. A porta não ficou totalmente fechada para o Wi-Fi na faixa superior: a Anatel criou um ambiente de testes controlado (sandbox) para avaliar se novas tecnologias poderão permitir compartilhamento do sinal no futuro.

A decisão anterior no mesmo processo: o caminho para o 6G

Essa divisão de espectro não surgiu isolada — é parte de um processo maior sobre o futuro da faixa de 6 GHz no Brasil, iniciado após a Anatel concluir a limpeza da banda C (usada anteriormente por satélites de TV). Em 10 de agosto, um dia antes do Ato 10.400, o presidente da Anatel, Carlos Baigorri, encaminhou ofício ao Conselheiro Alexandre Freire apresentando manifestação sobre a necessidade de estudos complementares, registrando que “não se considera conveniente nem oportuna a realização de estudo complementar” — sinalizando que a agência já tinha pressa para avançar com a decisão.

O contexto mais amplo: a limpeza da faixa de 3,5 GHz (usada para 5G) já havia sido concluída em todo o país, com a EAF desocupando 1.482 estações que operavam na Banda C Estendida e mitigando interferências de 19.200 estações na Banda C em 5 mil cidades — trabalho que abriu caminho para a implementação da nova geração de internet móvel dentro do cronograma previsto no edital do 5G.

Por que isso importa além do Wi-Fi doméstico

A decisão da Anatel é, na prática, uma escolha de política industrial: privilegiar a infraestrutura de rede móvel pública (5G/6G) em detrimento da infraestrutura de conectividade privada (Wi-Fi doméstico e corporativo) na mesma faixa de frequência. Para operadoras, é vitória — mais espectro móvel disponível. Para fabricantes de roteadores e empresas que dependem de Wi-Fi de alta capacidade, é uma limitação técnica que reduz o desempenho máximo teórico dos equipamentos mais recentes já vendidos no mercado brasileiro.

O que observar a seguir


Fontes: Minha Operadora (Ato 10.400/Acórdão 203), Imirante.com (Ofício nº 2/2026/CEO-ANATEL), ConvergênciaDigital